quinta-feira, 20 de março de 2008

Domingo de carnaval. À tarde. Paro em frente a uma senhora, sentada na calçada, suja, bastante suja. Aquele tipo que dizemos imunda, podre. Os cabelos estavam grudados de tanta sujeira. Não sei precisar se estava embriagada. Na realidade não parecia. Parecia estar embriagada da vida maltrapilha, mal cuidada. Fiquei paralisada, eu e dois colegas. Olhávamos, comentávamos. Disse: isso é um fiapo de gente, meu Deus! Eles preferiram dar as costas. Assim como fazemos para tantas coisas da vida. E eu ali, olhando, pensando, imóvel. Um deles questionou, a Prefeitura não faz nada? Não soubemos responder. Sempre que vejo alguém na rua muito suja, gostaria de dar um banho. E disse: queria ter um lava-jato de gente. Gostaria de esfregar bem, colocar roupas limpas, colocar perfume, e mostrá-la num espelho. Depois claro daria comida, e tentaria fazer um trabalho social. O pior da cena era vê-la comendo. Realmente o que chocou foi isto. Ela estava com um saco transparente, pequeno, cheio de restos de comida, parecia até que tinha ossos já roídos, parecia tirados do lixo, ela colocava no chão, esfregava segurando com uma das mãos, o olhar perdido, e a mão vagarosamente seguia até a boca. Tudo muito vagaroso. Eu, ali parada, imóvel, pensando em tantas coisas. E Deus? Por que existem tantas diferenças? E o governo? E eu o que faço para mudar isso? O que faço diante daquela cena? Lágrimas vinham aos olhos. Pensava que eu ia almoçar ainda. Que estava com uma banana na bolsa, dar ou não? O que seria uma banana diante daquela cena? Diante daquela vida? E não me movia. Não fazia nada. Dar dinheiro? O que ela faria com o dinheiro? E era da minha conta. Como fico imóvel diante da vida, só por causa dos pensamentos, que pensam demais. Nessas conversas, tinha uma lembrança, uma voz que falava comigo mais insistente. Até que não agüentou mais falar e gritou comigo. Então me movi. Aproximei, e ainda temerosa de um fora, perguntei: a senhora aceita uma banana? E minha voz interna e perturbadora diz: que ridículo, oferecer uma banana. Mas você tem uma banana, ofereça. Esta banana não lhe serve mais, diante desta cena, ela não lhe pertence, mesmo que você não dê a ela. Uma banana! Aceito uma banana. Quando ela disse isso me pareceu até mais doloroso que um fora. Esperava um fora. Aquela voz macia, surpresa em receber uma banana. Parecendo ser o melhor prato de almoço do mundo, doeu na minha alma, que é tão frágil e insegura. Levantou-se, pegou a banana. E ficou com a banana na mão, parada, em câmara lenta. Meus colegas já seguiam, me chamavam, olhavam para trás. Queria ver o que ela faria com a banana. Talvez todas as vezes que for comer banana lembre dela.
Lembrei das “bananas” que temos que dar pela vida afora e não damos. Escrever tudo isto é reviver tantas coisas. Que estavam naquela cena, e não eram necessariamente daquela cena. Desde a minha adolescência acho que cada um de nós somos a própria representação de Deus. Esse Deus que nos ensinaram não pode fazer tudo, nós temos que fazer a nossa parte. E mais uma vez não soube ser Deus.

15 comentários:

Layla Lauar disse...

Amiga, muito bonito este seur relato. Aqui em Belo Horizonte, formamos um grupo de voluntários e costumamos sair pelas madrugadas, levando sopa e agasalhos para moradores de rua, alguns aceitam ser encaminhados para albergues da prefeitura e outros não, mas experimente, um dia, conversar com algum deles, vai ficar surpeendida com as histórias que tem para contar, principalmente se já forem idosos. Mas eu, mesmo quando estou sozinha, nunca os ignoro.Por algum motivo ou plano de Deus, foram colocados no meu caminho.

beijos todos e + um

Nana Lopes disse...

Então...
Nosso olhar pode ficar cauterizado e não mais perceber os aparentemente amaldiçoados pela pobreza, os rejeitados...
Pensar em quantas bananas jogamso fora pela vida...
Beijokas menina e boa pascoa, se é que voce a comemora. Se não boa pascoa tambem,kkkkk.Páscoa é libertação!

Edson Marques disse...

Paula,


Aqui no teu blog eu já dancei. Já ri, saltei, refleti, gargalhei...

Mas hoje eu chorei.

E me lembrei das tantas bananas que eu já deixei de dar nesses caminhos da vida. Banana mesmo, a Musa Paradisíaca (nome em latim belíssimo da banana!)e também banana alimento da alma.

Talvez por isso, por não ter podido dar todas as bananas que supus necessárias, é que entrei no Partido Comunista Brasileiro. E ainda acho que o Sociliasmo é um dos caminhos para solucionar as desiguldades sociais. Como teoria é.

E, para as bananas da alma, me tornei poeta.

Abraços, flores, estrelas!



Ah, Deus vive me dando bananas, todo dia, nos dois sentidos... rs!

Ederson Marques disse...

A casa é sua minha nobre escritora-fotógrafa... e por falar em fotos, gostei das flores e, principalmente, da palmeira... parabéns!!! forte abraço e continue a nos dar a graça de boas imagens

Chuvinha disse...

A população de rua é desassistida pelos governos porque não possuem título de eleitor. Sua preocupação minha amiga é MINHA também. E sei que sua dor à cena foi incalculável.

Dalaila disse...

um relato que toca em quem lê.

Adri /Dri /Drika disse...

Infelizmente isso tem em todo o lugar. Feliz dia do blogueiro, que voce tenha um bom feriado e uma Feliz Páscoa ;)

Juliana disse...

Olá Paula!

Sensível desabafo, me emocionei. Como teimamos em esquecer tanta miséria e sofrimento que nos cerca... Talvez não consigamos ainda mudar o mundo, mas oferecer do fruto que temos é um passo. Quem sabe mais a diante já poderemos plantar e colher juntos?

Professor Sergio disse...

Paula vc é como eu, valorizo esses momentos para refletir a vida... lamentável....paulinha hoje é dia do blogueiro, tem um selo comemorativo no meu blog que ofereço a você pela maneira que utiliza tão bem este espaço virtual...Parabéns blogueira!! bjs amiga!

Esconderijo da Bandys disse...

Paula
Se eu faço a minha parte Deus faz a dele. A mão estendida cura ferida...Nunca deixo de estender as mãos.
Lindo texto.
Beijos no ♥

Betho Sides disse...

Vc soube sim meu amor...é que não esta acostumada! Aquela banana, para aquela senhora, deve ter sido a coisa mais gostosa que ela comeu naquele dia, pois ela não teve que pedir...foi OFERTADA por vc...Viu só vc soube!abçs uma excelente Páscoa. bjs

Alisson da Hora disse...

Só quem tem envolvimento dá a um relato desses tamanha sensibilidade... não há como exercer amor e misericórdia sem o envolvimento...senão não é caridade, é simplesmente dar...

beijos

a.h.

Grace Olsson disse...

Ah Paulinha...vou chorar(essa historia me fez lembrar de dois funcionarios da ONU comendo diante de um monte de refugiados famintos e um deles me deu duas bananas e como eue stava conversando com um congolês me pedindo dinheiro para comprar comida, eu dei uam das bananas...as lagrimas dele rolaram feito criança).
Feliz Páscoa

Everson disse...

Passando pra desejar uma otma Pascoa pra ti e toda sua familia, depois da uma passadinha no Livro e pega o selinho de Pascoa na sala Pra Voce e o selo do dia do blogueiro, nosso dia....beijos com chocolate.

Edson Marques disse...

Aproveitei para reler teu texto!


Mas teus comentários forçaram-me a alterar substancialmente o post do dia 19/03. Tive que citar a Cura, porque ela está contida em quem me lê.

Abraços, flores, estrelas...