domingo, 30 de janeiro de 2011




 
Vou caminhando e encontrando trilhos, vagões, hortênsias e sons. Sons dos meus pensamentos, do blues ao rock metálico, vou caminhando entre eles, abrindo espaço para voos livres ou para mergulhos profundos. Um ritual que se repete faz dias, meses. Dias e meses que somados lá se vão em anos. E eu trilhando.
Me entrego a beleza da hortênsia. Me recolho no barulho do trem. Suspiro, respiro, e deixo passar o tremor dos trilhos.


Foto: Bento Gonçalves-RS - 02.01.11
Texto: 23.01.11

sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

O ser humano, as relações e a matemática.


O ser humano é único, e é múltiplo. Nas relações um mais um nunca são dois, cada um é mais de um. Somos uma equação a ser resolvida, sempre com uma incógnita. Somos um círculo de muitos ângulos. Somos paralelas buscando o encontro. Somos em muitos momentos indivisíveis, mais multiplicáveis. E em outros somos o inverso. Não somos exatos. Somos uma pirâmide, e na base não somos nós, somos o somatório de outros. Somos um conjunto com seus vazios a serem preenchidos. Na vida, nas relações, a ordem dos fatores altera os resultados. Pega-se um humano, você tem a forma, a massa, o peso, a altura, a largura, o comprimento, o volume mas você não tem a totalidade, porque ele será sempre mais. Somos infinito, nem a morte nos finda. E ainda morto nos multiplicamos no outro.




 


Fecho os olhos. Sorri os olhos e o corpo, só porque o pensamento esta leve e solto. Minha imaginação me sussurra que estamos brincando. Estamos brincando de cantiga de roda. Algumas músicas são antigas. Lembro do disco de vinil amarelo. E nós rodamos um com o outro, com outros e rodamos no nosso próprio eixo. Estamos fazendo os dias girarem mais rápido. Você rodopia de lá, eu rodopio de cá. A vida poderia ser sempre assim, brincadeira de criança, cantiga de roda. A leveza de uma saia estampada de flores coloridas. A beleza de um sorriso ingênuo. Mãos dadas numa grande roda, pés que quase não pisam no chão. Vamos continuar cantando e rodopiando, enquanto a vida não vem, com o peso de dias de chumbo. Peso de  concreto armado, amarrando as emoções na pilastra da alma. Vamos rodopiando os dias. Você mexe de lá, que eu mexo de cá.


Foto: Jardim Botânico do Rio de Janeiro-2009

quinta-feira, 27 de janeiro de 2011



É janeiro de 2011.  Dois anos passam depressa, quando se brinca de viver. Chove lá fora, chuva de verão. Dentro de mim, mil sóis sorriem. No mundo, catástrofes, tufões, inundações. Dentro de mim, neste momento, não tem catástrofes, só tufões, inundações e sóis. Porque me inundo de você, e o vento forte que colho quando meus olhos te percorrem são ventos de tufões, arrancando de mim, eu mesma. Ventania de ventar nos meus olhos chuva de verão. Sol que me escalda a alma, desabrochando no meu chão de sertão, flores.


Texto - 24.01.11
Foto - Chapada dos Veadeiros - Brasil






terça-feira, 25 de janeiro de 2011



Estou voando nas tuas asas. É verão, com ar de primavera, cheiro de flores no ar. Gosto dos rasantes que você dá, sinto frio na espinha, me agarro nas tuas asas e sigo.

Vamos beirando sempre o horizonte, lá onde ele se encontra com o mar. É tão distante.

Você faz muitas acrobacias, vira de ponta a cabeça, bate as asas mais forte. Me segura! Tenho sempre medo de cair. Quando escorrego, fico estatalada no chão, meio morta, meio viva, e choro. Sempre choro.

Por enquanto estou aproveitando os voos, e hoje pensei na queda, mas deixa prá lá. Voa mais alto, vai, sim, bem alto. Ah, sorrio com o vento soprando meus olhos, fazendo cócegas nos meus cabelos. Gosto de sentir tuas asas me levando.

segunda-feira, 24 de janeiro de 2011


O todo é muito bonito. Divido em parte para expressar o que sinto. O todo é lindo. Mas subdivido por não saber juntar o todo em mim e dizer toda a beleza.

Porque o todo me parte em partes inteiras, caídas de mim. São pedaços do céu que se desprendem do meu horizonte. São palavras que entram me despedaçando. É um remexido estranho de palavras, do sentir, da incompreensão do que sinto ao ler.

Retomo, sempre pelo mesmo motivo. Pelo todo, pelos pedaços que ficam em mim. Brilhando e piscando igual às estrelas. Me perfurando a alma e apertando o peito.

É preciso expressar o muito, que no espaço pequeno não pode ser dito. Porque preciso voltar e preciso seguir. Preciso falar, quando é prudente calar. Mas a andarilha anda dentro de mim, patinando palavras, que provocam chuvas de estrelas.....




13.03.09

domingo, 23 de janeiro de 2011

Dormir na praça




Lembro, nem sei porque lembrei, do dia que lhe convidei para dormir na praça . Você topou. Sorrio, nunca sei quem tinha menos juízo e mais ideias estranhas. Planejávamos tudo. A praça, o banco que caberia nós dois, a emoção de fazer amor numa praça. Quando a lua estivesse cheia seria ideal. Mesmo que o meu maior desejo fosse dormir numa praça, fazer amor seria um complemento, um gostoso complemento. Fiquei super contente porque você topou. Eu e você combinávamos em algumas loucuras. Você só não topou uma, e ficou me devendo outra. Um dia conto.

Mas para esse meu sonho ser completo, tinha que ter o cobertor cinza. Daqueles que já vi mendigos dormindo. Começamos a ir namorar nas praças da cidade, para observar os detalhes. Tipos de bancos, se o local era deserto, se eram arborizadas, se era movimentada. Algumas já tinham os que dormiam lá diariamente. Dividiríamos a mesma praça com os que já dormiam lá? Talvez fosse mais seguro. E se fosse na praça perto do Quartel da Polícia? Essa, gostávamos do banco, e perto do Quartel estaríamos supostamente mais protegidos.

Nem cheguei a comprar o cobertor. Ouvimos no noticiário a morte de um morador de rua que foi incendiado. E vieram outros. E mais outros. A maldade humana nos assustava. E roubava o meu sonho. Hoje você não está comigo para fazermos loucuras. E loucos que sonham sonhos não são fáceis de se encontrar.

Também não divido meus sonhos com todo mundo. A de se ter um olhar especial, um toque que abre portas. Para libertar a minha loucura,tem que ter habilidade. Tem que ter uma dose de loucura, mas tem que ter cumplicidade.


Texto escrito em 07.02.10
 


sábado, 22 de janeiro de 2011

Embriagar-me


Vou beber tuas palavras, tomar de goles teus pensamentos. Deixar penetrar no sangue. Circular nas veias. Irrigar a mente. Sufocar o ar dos pulmões.
Vou me embriagar da beleza das tuas cenas. Das histórias que me consomem. Da maravilha dos teus textos.
Vou rodopiar trôpega em cada frase. Voar com os teus personagens. Com cada sentimento lido. Com a inquietude do ser que lhes habitam.
Vou ler e reler os teus capítulos. Apalpar a pulsação dos parágrafos. Me deleitar com a boniteza da construção do enredo.
Vou me permitir ser leitora. Ser a assistente de palco. Ser coadjuvante. Estar nas coxias. Ficar na plateia. Aplaudo de forma delirante as palavras que você dá vida.

10.07.10

sexta-feira, 21 de janeiro de 2011


Estátua de Joaquim Cardoso - Recife


Fruto das minhas observações e análises pessoais, cada vez mais tenho certeza que o escritor é um louco que enlouqueceu por outras vias. Um louco saudável e produtivo, digamos assim.
O escritor consegue colocar o pensamento que ia se desviar e fazê-lo enlouquecer, em linhas retas, com começo, meio e fim. Não necessariamente nesta ordem, ou contendo todos. Para você ver como escrever é um ato complexo do ser e de ser.
O escritor é um artista que representa ele mesmo em diversos papéis. É como se o escritor tivesse várias personas, muitos “eus” dentro do “eu”.
Ele tem muitas vozes. Muitas escutas. Ele altera a realidade. Transforma o real em ficção, quase num processo esquizofrênico de se dividir, de se alterar, e alterar a realidade.
É um psicótico que não apenas fala só, mas fala através de outras vozes. No processo criativo ele pode ser Deus ou o Diabo. Constrói mundos e os destrói. Cria seres de todos os tipos, dos bons aos maus, passando pelos indecisos.
Esta esquizofrenia do seu “eu” que confabula o tempo todo com outros dentro dele, e com outros fora dele, nos fornece uma gama enorme de livros.
A mente é um palco eterno. Entra e sai personagens. E esta possibilidade de sermos muitos e convivermos em sociedade nos dá mais possibilidades para criar.


 

quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

foto: no Espírito Santo/março-10


Você conta as histórias e eu vejo as cenas. Vizualizo e sinto o barco no cais. Personagens que me instigam a pensar.
Ouço as vozes dos personagens se misturando com as minhas. Navego por debaixo do rio de emoções. Do pulsar das palavras. Me encontro no emaranhado das algas do não dito.
Os personagens sempre tem gritos a serem gritados. Desejos que são calados, mas que se derramam de alguma forma no leito do rio.
Sigo. Gosto da trama que se sucede. Gosto de imaginar. Gosto de criar em cima da emoção gerada pela emoção.
Navego esse rio, me afogando em mim mesma, nas lágrimas, nos sorrisos, na curiosidade que cada persongem me desperta.

20.11.09

quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

Viajando através do fado



Nem tragédias, nem catástrofes
No meu mundo o fado
Interagindo com meus silêncios
Melancolias e saudades

Caminho a passos médios
Me distancio de mim
Ouvindo o fado que toca
Na voz do moço bonito
Que mastiga as músicas doídas
Com sabor de sorriso
Vou caminhando
Sem sair do lugar
Sigo distante
Pensamentos me empacotam
Para mais uma viagem

Toca o fado
Tudo na mais perfeita harmonia
Eu perfeita
Sem estar em mim
Sem ouvir, sem ver, sem tocar
Sem poder sentir
Vou caminhando
Sem sair do lugar
O pensamento me leva


 
foto: Instituto Ricardo Brennand - Recife



De tempos em tempos
Preciso revisar minha armadura
O esforço é grande para não me apaixonar
Reforço todos os poros
Soldo o coração
Tranco o umbigo
Blindo a alma
Coagulo o sangue 
Encouraço a emoção


Mesmo assim, sinto uma brisa quente me percorrer....


domingo, 16 de janeiro de 2011




Da série andarilha.


Na palma da mão, as linhas.
Nos pés a ânsia de conhecer lugares.
O palpitar da vida.

A palavra que emociona.
Seja escrita ou falada,
A não contada.
A história de vida.

Na palma da mão, o tempo.
Linhas que se cruzaram por pés inquietos.
A promessa. A ponte, a travessia, o abraço.
Muitos rios de emoção já rolaram no leito dos olhos.
Pontes elevatórias que após a passagem de volta, talvez não tenha mais ida.
Rotas trilhadas, a emoção que saltou dos olhos, a alma falou mais forte.
A raiz de uma história plantada.

21.03.2010

quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

Barcelos - Portugal

Ouvi falar que já estamos em 2011. O blog parou em dezembro de 2010.
Retorno postando um pouco do dia 25 de setembro de 2010.

2010 se foi, mas não me despedi dele.
Não pulei ondas.
Não dancei ciranda.
Não olhei o céu enquanto os fogos estouravam.
Dancei. Estava feliz. Mas não amanheci em 2011.
As lembranças são forte. A saudade é imensa.
Portugal insiste em se fazer presente....
Bate a minha porta, me abraça, me toca...
Me emociona.
Vou voltando ao blog
Ouvindo fado
Emocionada
E andando por Barcelos








dd



Este post dedico a
Mário Lopes.

(Falar de Portugal é estar sempre agradecendo a Carlos e Rosa,
sem eles não teria conhecido os lugares bonitos que conheci, a cultura, a culinária...)