terça-feira, 8 de fevereiro de 2011



Viajava e a cada visita na horta se enchia de palavras. Colhia e escrevia. Perfumava-se de inquietudes e dava uns passos a frente.  Foi deixando nas gavetas das cômodas as memórias rabiscadas em toalhas de vento. Começou uma nova safra, pensou tratar-se de uma colheita de sete dias, entre chuva e sol, dia e noite, um só semeador, híbrido de outros. A colheita foi interrompida, os grãos plantados nela não floresceram. Ela não germinou, não cresceu, não floriu. Não foi feita a sua colheita. A mais esperada. Depois desse período, na terra prometida, o solo tornou-se árido. As chuvas ficaram escassas, o sol tornou-se ausente. A andarilha sentiu ressecar os pés.


Texto: 12.09.09
Foto: Portugal-10

11 comentários:

Vivian disse...

...nem sempre encontramos
terra fértil para semear
nossos sonhos.

o que conta é não desistirmos
da procura.

um beijo, minha linda!

EDER RIBEIRO disse...

O que é interessante neste ciclo de secura e úmidade é nunca perdemos a esperança, pois qdo se faz a semeadura intentamos muito a flor e o fruto, e eles somente vêem por obra divina. Bjos.

d'Alma disse...

Há culturas assim!... As palavras, quando lançadas em solo fértil, germinam sempre na metamorfose das mais variadas espécies!... Poderia uma Palavra, enquanto semente, dar origem à sua própria Palavra, sem qualquer outro significado, nascendo, dessa semente, nada mais do que um reflexo de uma vaidade, de um pequeno egoísmo cultivado na inconsciência dos espelhos!... A delicadeza da Cultura, e da "horta", requer espelhos deformativos, assustadores nos reflexos, em vez dos espantalhos de outros tempos e sobre os quais, corvos menores e o canto das cotovias, se abatiam!... A Palavra, quando lançada à imaginação, mesmo que aparentemente árida, deve ser uma esperança profícua, e originadora de algo que crescerá na confiança de quem se entrega à cultura e se cultiva numa simultaneidade de palavras diferentes!... É um sentimento de muitos sentimentos e consequentes sensações... como todas as palavras do mundo!... E da Vida!...
A colheita nem sempre acontece na definição clara das cores ou dos aromas ou, até, das formas... há essa colheitas que representam um acreditar na palavra e nas palavras que nutrirão desejos inacreditáveis!... Assim se semeie a palavra e a "horta" será um imenso espaço de cultura e os desertos serão alagados prados verdes!
Não esqueça de regar a florzinha com um pouquinho de carinho das palavras!... A flor, qualquer que seja, agradecerá!






Abraço

Dauri Batisti disse...

Mas andar, de andar se faz a vida de um andarilho, anda por quê? anda porque quer, anda pois é preciso, anda e vai e é levado ao mesmo tempo. A secura nos pés pode ser peira acumulada e então o velho conselho para os andarilhos se repete, sacudir a poeira e seguir adiante.

Beijo.

Benno disse...

o único legado que deixamos são as sementes que plantamos... quando elas não vingam de imediato, muitas vezes ficam adormecidas por muitos anos esperando que os ventos ou as enxurradas das chuvas, os leitos dos rios a levem em seus braços sem acordá-la até uma linda manhã onde finalmente despertem o ouçam os cantares dos pássaros, os ires e vires das folhas ao sabor do desejo dos ventos, a rítmica sinfonia dos bosques e finalmente resolvam florescer, por vezes tempos depois de termos partido.

Everson Russo disse...

To me sentindo meio assim tambem,,,com o terreno meio arido,,,as vezes me pego pensando que ando meio repetitivo demais,,,sem um caminho exato a seguir,,,to precisando semear novamente esse jardim,,,,beijos de bom dia pra ti...


p.s.fez sucesso entre os comentarios o seu sobre as fotos...rs..rs..rs...já tem gente querendo entrar na festa..rs..rs..

epee disse...

Novos tempos e novas paisagens surgiram. E os pés, sensíveis, acolheram o novo como surpreendente, mais que isso, renovaram-se e rejuvenesceram-se, como deve ser mesmo àqueles que não limitam-se a restringir nem passos, nem linguagens, nem horizontes.

E você sabe bem o valor que deve dar a cada verso para que eles não sejam mais que mais, mas sempre muito mais que muito mais.

Linda poesia.




¬

myra disse...

melhor, agora, a esta idade e com este cambio radical na minha vida, acho que teria sido melhor ficar no brasil como o meu irmao...cansei de andar e andar
mas voce escreve tao BEM!
beijos minha querida amiga Paula!

mfc disse...

... o fim dos tempos!

Jacinta Dantas disse...

Lendo-te, fico pensando e, pensando, vou imaginando a horta de palavras, horta que me parece viva com ciclos variando entre a hora de plantar e hora de colher...
E continuo pensando que o Ser que se faz andarilho, também, faz esse ciclo. Vai-planta-volta-colhe-vai de novo, preparando outras hortas...

Um abraço

Elcio Tuiribepi disse...

Oi Paula...lindo poema, usou de forma muito bonita as metáforas para expressar o sentimento...
Mas a vida é meio que assim mesmo, o importante é não deixar de regar os pés, a alma e assim seguir em frente
Amiga...um abraço na alma...que a escrita te continue a germinar poemas dess mesmo calibre
Beijo