domingo, 23 de janeiro de 2011

Dormir na praça




Lembro, nem sei porque lembrei, do dia que lhe convidei para dormir na praça . Você topou. Sorrio, nunca sei quem tinha menos juízo e mais ideias estranhas. Planejávamos tudo. A praça, o banco que caberia nós dois, a emoção de fazer amor numa praça. Quando a lua estivesse cheia seria ideal. Mesmo que o meu maior desejo fosse dormir numa praça, fazer amor seria um complemento, um gostoso complemento. Fiquei super contente porque você topou. Eu e você combinávamos em algumas loucuras. Você só não topou uma, e ficou me devendo outra. Um dia conto.

Mas para esse meu sonho ser completo, tinha que ter o cobertor cinza. Daqueles que já vi mendigos dormindo. Começamos a ir namorar nas praças da cidade, para observar os detalhes. Tipos de bancos, se o local era deserto, se eram arborizadas, se era movimentada. Algumas já tinham os que dormiam lá diariamente. Dividiríamos a mesma praça com os que já dormiam lá? Talvez fosse mais seguro. E se fosse na praça perto do Quartel da Polícia? Essa, gostávamos do banco, e perto do Quartel estaríamos supostamente mais protegidos.

Nem cheguei a comprar o cobertor. Ouvimos no noticiário a morte de um morador de rua que foi incendiado. E vieram outros. E mais outros. A maldade humana nos assustava. E roubava o meu sonho. Hoje você não está comigo para fazermos loucuras. E loucos que sonham sonhos não são fáceis de se encontrar.

Também não divido meus sonhos com todo mundo. A de se ter um olhar especial, um toque que abre portas. Para libertar a minha loucura,tem que ter habilidade. Tem que ter uma dose de loucura, mas tem que ter cumplicidade.


Texto escrito em 07.02.10
 


10 comentários:

Everson Russo disse...

Engraçado,,,me lembrou uns anos atras...eu já dormi na praça tambem,,,conversando com uma pessoa muito especial,,,ganhando carinho nos cabelos,,,deitado no colo dela...só não passei a noite toda...rs..rs..rs..mas dormi na praça...rs..rs...tempo bom que nao volta mais....beijos de otima semana pra ti querida.

d'Alma disse...

Há uma espécie de "doce loucura", serpenteando por entre as linhas do texto!... Há uma "sem-abrigo" procurando um abrigo especial onde as estrelas cintilam no olhar de uma curiosa aventura!... E procura-se a cumplicidade de um Sol que possa transformar-se em Lua, só para os desabrigados; uma Lua que traga o romance e o fogo da sedução, da paixão e, quem sabe, o sabor do pão... e da manteiga!... No entanto, o cobertor do desabrigado, é muito fino, aconchegante, ainda que frágil protecção do abrigo!... No "banco" dos pobres não há depósitos, levantamentos ou empréstimos aos juros mais baixos... nem mais altos; apenas juros que o Destino vai cobrando sem dó nem piedade!... Depois, há o "banco", que se desmancha por entre as palavras deste texto, tábua por tábua, ferro por ferro, acento por acento obrigando à inflexão da voz e do desejo do assento, do deitar e do abraço estreito do estreito "banco" onde toda a pobreza se senta!... Assenta, nestes bancos, não raro, uma estranha forma de felicidade que só a Lua e as Estrelas poderão compreender, no merecimento de quem não merece sofrer por... um banco protector, só para si!...
Qualquer pessoa poderá dormir num banco e, com um pouco de imaginação, poderá erguer desse delírio um "banco" onde a simulação do levantamento na caixa automática, o faça viajar por banquetes e toda a felicidade que o dinheiro pode comprar, no entanto, um banco sem abrigo será, a cama que nenhum devaneio poderá sentir como uma Felicidade ou toda tristeza do mundo que convida ao repouso, a um pequeno sonho, de quem, talvez, já tenha perdido toda a Esperança num qualquer abrigo!...
Continua a fazer-se Amor, entre risos e sorrisos, nas costas de bancos da praça, do jardim!... Os bancos continuam amigos íntimos, do desabrigado que sobrevive na intimidade de si mesmo!

Abraço

Tatiana disse...

É uma pena que tantos dos nossos sonhos e vivências tenham que ser adiados por causa da maldade humana...
Que novos sonhos venham e bons sentimentos ocupem os corações!
Tenha uma ótima semana!
Um beijo carinhoso

Dauri Batisti disse...

Olha, muito legal a idéia, legal mesmo, ótimo conto, original.

Beijo

LOURO disse...

Olá Paula!

Belo conto de um sonho que podia ser real,ou será?

Beijnhos de carinho e amizade,
Lourenço

walter disse...

real ou não é muito belo este conto e reflecte uma boa dose de saudável loucura, aliada ao romantismo de um coração pulsante de vida...

afinal temos moça corajosa! rsrsrs

pois... o pior é a maldade humana!

um beijo, Paula!

walter

Uelton Gomes disse...

Olá Moça!

As praças de onde eu moro anda muito perigosa. Aqui não se namora mais em praça.
Quando eu tinha lá pelos meus 15 anos não via a hora de chegar os finais de semana para ir para praça paquerar..rsrs

Abraços

Pedro disse...

Cada doido com a sua mania... Pena que a sociedade (seja lá de que maneira for) vem sempre para castrar nossos sonhos...

Eurico disse...

As praças são excelentes lugares para namorar.
Pena que a violência não mais permite.
Bons tempos.

Daniel Savio disse...

Primeiro, você tem coragem para realizar o teu sonho...

Infelizmente o pessoal não tem muito senso de humanidade, mesmo estando em sociedade.

Fique com Deus, menina Paula Barros.
Um abraço.