quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011



Olha, avalia, analisa, respira profundo, sente. Observa o texto como se fosse um médico legista observando um corpo recém chegado para autópsia. Sabe que o trabalho não é fácil, é sempre complexo, a leitura daquele corpo será minuciosa. Naquele corpo inerte, tem vida. Vibram histórias no sangue coagulado, nas vísceras expostas. Aquele corpo cheio de veias, artérias e órgãos, tem vida, mesmo que o coração aparente não pulsar. Mesmo numa pedra fria, é um corpo. A voz é outra. O ritmo é próprio. O enredo é preciso dissecar, com todo cuidado. São tantos órgãos a analisar, para descobrir o desfecho do enredo, como descobrir a causa mortis.
Há de se observar o todo, como quem observa os cortes, os machucados, as marcas roxas, o que está aparente e assim observar geral. Do jeito que a causa mortis pode estar nos órgãos internos, é nas entrelinhas que gosta de se deter.
Porque sente quente e vibrante aquele corpo de tantas linhas digitais. Pele longa que o encobre. Sangue coagulado que tenta escorrer das veias dissecadas.


31.01.11

13 comentários:

Everson Russo disse...

Nossa,,,ta bem parecido com o que a gente passa pela vida,,,sofrimento, cortes, cicatrizes,,,desejos e sonhos perdidos,,,mas sempre vamos seguindo e acreditando,,,grande beijo de bom dia pra ti querida.

Dona Sra. Urtigão disse...

Uau !
Eu jamais conseguiria tamanha precisão

epee disse...

É!

Justo. Um corpo e um texto. Uma alma, noutras almas. Um gosto e um sabor. Um poema corrido. Palavras que fazem todo sentido. De vida. E a poesia no ar.

Belíssimo!




¬

Eurico disse...

E eu, que luto com as palavras de um dicionário complexo... leio tuas palavras, cristalinas, água escorrendo, potável, límpida.
Bom, muito bom te ler. Escreva mais. És tão boa nos textos quanto nas imagens.

Abç cordial.

Sonia Pallone disse...

Que intensidade poética, Paula! De volta, depois de uma longa ausencia aos lugares que me são caros, saio arrepiada com suas palavras. Bjs querida.

myra disse...

de completo acordo com Sonia Pallone!intenso muito intenso!
beijos

Uelton Gomes disse...

Olá Paula!

Paula lendo seu texto me lembrei das minhas aulas pratica de anatomia. Quando via aqueles corpos deitados nas macas frias ficava pensando como foi a vida daquela pessoa, quais fora seus sonhos, suas decepções. Deve ser por isso que eu nõ ia muiot bem nessa aula. rsrsr

Abraços e Obrigado pelo seu comentário no blog, falando sobre trilha e caminhos.

Pena disse...

Preciosa e Genial Amiga:
"...Sabe que o trabalho não é fácil, é sempre complexo, a leitura daquele corpo será minuciosa. Naquele corpo inerte, tem vida. Vibram histórias no sangue coagulado, nas vísceras expostas. Aquele corpo cheio de veias, artérias e órgãos, tem vida, mesmo que o coração aparente não pulsar. Mesmo numa pedra fria, é um corpo. A voz é outra. O ritmo é próprio..."

VOCÊ encanta e é encantadora.
Abraço de respeito imenso pela ternura que concebe de maravilhar e deslumbrar.
Comovido.

pena

pires disse...

É muito estresse pra se fornecer um laudo. Só passando...Fique com Deus Paula!

Dauri Batisti disse...

sabe que não gostei muito desta idéia de médico legista em relação ao texto?, nossa!, que coisa feia!, rsrsrs,

me veio a imagem de um texto defunto, morto...

e um texto sempre é vivo mesmo séculos e milênios depois de escrito, mas brinco contigo,

teu texto é provocante isso sim, mesmo que me desagrade.

Por outro lado esta "exegese" de um texto pode fazer o leitor perder, não enxergar, o mais importante, na névoa fresca que se expande entre as letras e os olhos, o voo da libélula, o canto do curió e o barulho gostoso e ritmado do trem que passa. Perde-se tudo no afã de tudo ver e descobrir.

Bem, acolhes-me assim mesmo,sei, me entendes, mesmo quando discordo, quando disgosto, quando vou para outro lado.

Beijo

Everson Russo disse...

Um excelente final de semana pra ti querida amiga,,,beijos e poesia sempre.

EDER RIBEIRO disse...

A morte em si não "acaba" com a pessoa, e muito dela permanece dizendo através da atitude em vida. Cabe a nós saber "lê-la". Bjos. Qto as fotos, não me acho um artista, mas somente um capturador de imagem.

C. disse...

Me vi no papel de médica agora, sem nunca querer ter sido.
É que sao os mistérios das tuas palavras, e que nos levam a caminhos desconhecidos, que de repente estamos fazendo um laudo, nem sempre preciso, mas levados pela comoção da palavra que nos alimentou.